"O Charme Discreto da Burguesia (1972)": um filme banal

18/10/2010

Há filmes que, de certa forma, formam parte de um vocabulário básico de todo apreciador de cinema. Em geral, a maioria dos filmes de qualidade já foram catalogados em listas de "x" melhores da Nouvelle Vaugue, "x" melhores das décadas tais, de todos os tempos etc. Também é facilmente compreensível que todos eles já tenham sido objeto de análise e de textos sortidos de fácil acesso.


"Le Charme Discret de la Bourgeoisie" de 1972 é um filme, do diretor mexicano Buñuel, que costuma ser muito badalado por ser uma "feroz" crítica à nossa sociedade contemporânea. Os seus expectadores também costumam agregar os adjetivos "ácida", "surrealista", "combinação de realidade e absurdo" e tantas outras embalagens mais.

Segundo Ruy Gardinier, neste filme percebe-se “o sonho da bela comunidade, da agregação ideal de um grupo de pessoas afins, de modo a transformarem o mundo em algo mais belo”. Esta é uma daquelas belas frases retóricas, típicas dos críticos de arte contemporânea, que tentam acrescentar, com palabras, algum conteúdo a algo que não tem nenhum.

Qualquer um que esteja acostumado com um mínimo de literatura verdadeiramente crítica da sociedade (Horkheimer, Gramsci, Luhmann, Nietzsche, Marx, Hegel, Deleuze etc) percebe que o mais evidente nesta obra de Buñuel é a ausência absoluta de diálogos críticos e aprofundamento em quaisquer questões.

É preciso certo esforço para enxergar que o que se passa na tela não é nada mais do que se passa em qualquer outro filme, inclusive os tais "absurdos surrealistas", que se devem aos sonhos dos personagens e não a uma análise do absurdo cotidiano.