Por que crescer dói?

27/04/2010


Comumente ouve-se que "crescer dói", e que o amadurecimento é intrinsicamente doloroso. Mas o que isso quer dizer exatamente? Qual a razão da dor? 

O indivíduo, ausente do mercado de trabalho e das relações de dominação e sujeição a que estão submetidos todos os que cotidianamente o enfrentam, alimenta uma percepção romanceada de que a vida é como um lazer prolongado e que o trabalho é um passa-tempo remunerado. No entanto, no momento em que se dá a inserção do indivíduo do mercado de trabalho, este apercebe-se, mesmo que instintivamente, que ele próprio é uma versão em oferta de uma mercadoria em abundância. Transformado em mero produto à disposição nas prateleiras do mercado e submisso à concorrência própria das objetos inanimados pelo empregador, ele está finalmente à mercê da lei que regulamenta as relações humanas: a lei econômica. Suas habilidades produtivas são reduzidas ao valor do salário, que é, em essência, o valor que ele próprio possui em sociedade. Ele vê seus anseios e aspirações intelectuais, emocionais e sociais serem condensadas em requerimentos técnicos dentro de uma linha produtiva positivada pela divisão em série e acrítica do trabalho. Inserido em um processo de embrutecimento, sua atividade remunerada se reduz a um par de atividades rotineiras que contêm a aventura de se grampear 40 horas por semana algumas pastas de papéis impressos e clicar repetitivamente o mouse. O indivíduo apercebe-se que, assim como as mercadorias no supermercado, ele próprio possui seu código de barras e preço explicitado pelas suas relações produtivas no trabalho, e está disposto no fundo do corredor dos produtos de limpeza. Enfim, dada a natureza monetária das relações sociais, dá-se conta finalmente de que seu valor enquanto mercadoria é também seu valor enquanto pessoa no mercado de indivíduos à disposição para os relacionamentos sociais. Finalmente, acumula insatisfações inúmeras dada a exposição a que está sujeito pela sociedade de consumo, e se vê como engrenagem descartável dentro de uma máquina produtiva que se utiliza instrumentalmente da massa de desempregados para comprimir decisivamente a massa salarial. E não compreende, enfim, que sua dor é advinda socialmente do desconforto generalizado a que está submetido pela compressão de sua existência individual à condição de mercadoria facilmente substituível.