Folclore Argentino

08/10/2009

Não queria noticiar aqui a morte de Mercedes Sosa porque todos os jornais já o fizeram. Como todo mundo já sabe, ela faleceu no domingo e foi cremada ontem. Mas um dia desses, um amigo me perguntou se ela era como um Roberto Carlos da Argentina. Só tenho excelentes lembraças deste país, onde morei, e penso que, de certa forma, ele tem alguma razão. Com várias ressalvas, claro.

Assim como o Tango, as músicas de Mercedes Sosa não são populares entre os jovens na Argentina, que preferem a Cúmbia e os ritmos pop/rock de inspiração norteamericana, ficando, de certa forma, relagadas à preferência das vovós, como Roberto Carlos no Brasil, aos quarentões e a alguns raros interessados em boa música (não me refiro ao "rei" aqui).

Certamente, é o público dos cinquentenários em diante quem realmente sabe o significado da cantora para o país e aquilo que a diferencia substancialmente do rei do pop brasileiro: sua postura política e participação no Movimiento Nuevo Cancionero.

O Nuevo Cancionero foi lançado em Mendoza, terra do vinho, por Mercedes, Armando Tejada, Manuel Matus e Eduardo Aragón. Num momento em que a oposição folclore-tango se tornava já evidente, o movimento lançou seu manifesto e se tornou popular do final da década de 60 até meados dos 80.

O folclore na Argentina é um estilo muito heterogêneo e ultrapassa em muito o criado pela cantora de Tucumán. Também são fenômenos musicais, e de dança, riquíssimos da cultura de nossos vizinhos a Zamba (pronuncia-se samba também), o Kaani, a Calandria, o Tuaj, o Aires , o Arbolito, a Arunguita, o Cuándo, a Cueca Cuyana, a Huella, o Marote, o Tunante, a Tirana, o Pehual, o Minué, o Huayra-Muyoj, o Taquirari e inúmeros outros que já não posso recordar.

Infelizmente, as maiores riquezas da cultura latino-americana não chegam a nós brasileiros. Ainda não conseguimos perceber como, infelizmente, ignoramos a presença de uma cultura heterogênea e surpreendentemente profícua em manifestações culturais de inestimável valor. O que assistimos de fato, no Brasil, é o comportamento passivo diante da cultura: aquele indivíduo que ouve o que está tocando (Eguinha Pocotó, Créu), lê o que está na prateleira ao lado do caixa (Crepúsculo, Paulo Coelho, livros ditados por marcianos ou fantasmas) e por aí vai.