O mito do amor à camisa.

22/09/2009


por P.C. Almeida

Certa feita, assistindo a uma reportagem sobre Felício Brandi, o nosso saudoso presidente nas décadas de 60 e 70, o repórter perguntava a ele sobre o interesse de um clube em contratar o craque Tostão. Brandi foi categórico na sua resposta: “Tostão é um patrimônio do Cruzeiro, um patrimônio de Minas. Por isso não tem preço. Ele fica.” Os mais saudosistas e melancólicos ficariam com os olhos marejados e o lábio trêmulo ao ouvir tal declaração.

Os mais novos podem estranhar, mas naquela época as transferências eram fato rarissimo. Geralmente, o jogador saia das categorias de base e estreiavam no profissional, já com seus 21 anos, e ali ficavam até aposentar-se. Talvez, no fim da carreira, o jogador mais consagrado ia para os EUA em busca da sua independência financeira. Como ocorreu com o êxodo de muitos craques para o mítico time do Cosmos de Nova Iorque. No mais, o jogador ficava mesmo por aqui e muitos deles nem enriqueciam.

Hoje o futebol é uma indústria. Sobretudo o futebol brasileiro, que possui uma predisposição natural para formar craques, o atleta já não vai para o profissional com o orgulho de jogar no seu clube de coração. O menino que hoje está na categoria de base, sonha em ir para a Europa jogar em esquadrões galáticos ou mesmo em times abstrusos de países inimagináveis até bem pouco tempo, tudo em busca do enriquecimento rápido. O dinheiro adentrou no futebol com toda a sua fúria brutal e corrompeu aquilo que existia há algumas décadas: o amor à camisa.

Sim, existia. O verbo fica bem no pretérito imperfeito. Mas ainda há um certo resquício no consciente coletivo, no senso comum, de que o jogador precisa, a partir do momento que vista a camisa, beije o escudo, tornar-se, súbito, um torcedor nato e hereditário daquela camisa que agora traja. Esse tradicionalismo impera na imprensa e reverbera nas arquibancadas ressoantes dos estádios.

Atualmente, quem ama o clube mesmo, de verdade, somos nós torcedores. Nós que compramos camisa, que frequentamos lugares sem conforto e sem segurança, que tomamos sol e chuva, tudo isso apenas para torcer, para prestigiar o nosso time jogar.