Obama e América Latina

25/08/2009


Após a reativação da Quarta Frota nas águas da América Latina, do golpe em Honduras com profícuas comprovações de cooperação norteamericana e das sete bases a serem instaladas na Colômbia, exacerbaram-se as tensões políticas frente aos EUA. É deveras sabido que o governo do Sr. Obama será consoante com o segundo mandato de seu antecessor, Bush, e que, apesar de uma retórica mais light, o militarismo somente troca de palco. Os planos de recuperação econômica de aparente inspiração keynesiana não contribuíram para o acréscimo da demanda agregada e ainda menos para a adição da renda via efeito multiplicador da política fiscal, dada a concentração do gasto nas instituições financeiras e do fato gerador de dívida, próprio do sistema monetário do FED. Reproduzo abaixo um texto de um ex-ministro da economia, não muito feliz como executor do plano econômico com seu próprio nome, mas sim como escritor de diversos livros aos quais tenho estima e consideração:

Deixemos Obama em Paz

Por Luiz Carlos Bresser-Pereira*

Todas as semanas, se não todos os dias, leio na imprensa lamentos de que o presidente Barack Obama não está interessado na América Latina ou então apelos para que ele se interesse. São lamentos e apelos de quem espera que os EUA "ajudarão" os países latino-americanos. Respeito essa opinião ou essa esperança, mas definitivamente não partilho dela. O Brasil e os demais países da região não têm o menor interesse em que o grande país do Norte volte suas atenções para o Sul, porque esse país jamais os ajudou; pelo contrário, com muita frequência, interveio de forma imperialista a fim de garantir seus interesses ou os interesses de suas empresas instaladas na região.

Vejo também críticas à política externa do Brasil porque estaríamos nos aliando a países "não democráticos", como Bolívia e Paraguai. Críticas na imprensa americana que são reproduzidas e ampliadas na grande imprensa conservadora dos países latino-americanos.

De repente, as elites conservadoras, que sempre se caracterizaram pela dependência em relação aos EUA, tornam-se "nacionalistas" em relação a esses países que são muito pobres. Ora, por serem pobres e pela consequente falta de uma sociedade civil organizada, de boas instituições e de um Estado capaz, esses países são muito difíceis de governar.

Países nos quais a exclusão foi muito forte e existiu por muito tempo. Países cujos governos nacionalistas e de esquerda buscam agora refundar a respectiva república por meio da integração dos pobres e dos excluídos na democracia possível -na democracia que países e sociedades tão heterogêneas e Estados tão fracos podem construir.

Finalmente, sabemos como foram desastrosas as políticas neoliberais do Consenso de Washington. Não levaram ao desenvolvimento, mas a crises financeiras e ao aumento da desigualdade nos países que se submeteram a elas. (...)

É isso o que esperam os críticos da política externa brasileira? É esse tipo de aproximação que esperam aqueles que lamentam a falta de atenção de Obama pela América Latina? Que o Brasil se associe ao imperialismo americano agora, como fez no regime militar? Que o Brasil adote as políticas neoliberais que fracassaram na América Latina e nos próprios EUA, mas continuam a ser recomendadas pelas agências internacionais controladas pelos norte-americanos?

Ou então talvez esses lamentadores estejam querendo que o Brasil se associe aos EUA como o fez o México? Qual foi o resultado dessa associação? Taxas de crescimento muito baixas, grande aumento da criminalidade e das drogas e, agora, nesta crise, uma brutal queda do PIB.

Definitivamente, o presidente Obama é sábio em deixar a América Latina de lado. Ele é uma esperança para os EUA e para o mundo. Os governos dos países pobres não ameaçam seu país. Tanto para ele, portanto, como para nós, latino-americanos, é melhor que não se interesse pela América Latina. Deixemos Barack Obama em paz. Essa é a melhor maneira de promover os interesses comuns que a região tem com os EUA.

*Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda, da Administração e Reforma do Estado e da Ciência e Tecnologia.